Uma mulher extraordinária cujo exemplo serve de estímulo
à nossa caminhada quaresmal. Viveu uma época de crise na Igreja - transferência
forçada do papado de Roma para Avignon (1309-1376) com as lutas subsequentes que
levaram ao Grande Cisma do Ocidente (1378-1417). Nobre e rica, soube soube
viver como pobre; casada e boa esposa e mãe, soube encontrar tempo para Deus e
os outros. A intensa vida interior dava-lhe grande familiaridade com
sobrenatural: convivia com o seu anjo da guarda. Viveu o carisma da oração
contemplativa e da assistência aos mais necessitados e doentes (nomeadamente
aos empestados de Roma, na epidemia que lhe levou 2 filhos). Canonizada pelo
Papa Paulo V em 1608, como modelo de filha, esposa, mãe, viúva, religiosa
(fundou a associação das “Oblatas Olivetanas”) e de mística.
Génesis 2, 7-9; 3,1-7 ; Sal 50, 3-6a.12-14.17 ;
Rom.5,12-19 ; Mateus 4,1-11
CRISTO, NOVO ADÃO (Mateus 4,1-11). O deserto onde Jesus é
levado pelO Espírito evoca a peregrinação de Israel depois da saída do Egipto,
mas também o jardim do Éden. Os pontos comuns fazem frente às faltas e à
precaridade, sob todas as suas formas (Deut. 8,1-5), mas também ao “afastamento
de Deus”. No capítulo 2 do Génesis, não confia Deus ao homem a Sua Criação, deixando-a
ao seu livre arbítrio ? Não se encontra agora Jesus sozinho no deserto, em
oração durante quarenta dias e quarenta noites, depois de ter vivido uma experiência
prolongada da proximidade dO Pai no baptismo ? É então que surge Satanás. Tal
como no jardim, a tentação é“tornar-se deus”(Gén.3).
Ora, ao contrário de Adão, Cristo, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem que assumiu até ao fim a nossa condição humana, opta por Se
remeter aO Pai em vez de Se deixar dominar pelo demónio e pelas “paixões” que
podem surgir por medo de falta de pão, pela atracção do extraordinário e pelo
fascínio do poder. O que Cristo experimentou de maneira pontual aponta para o
que Ele teve que viver durante a Sua existência terrestre e para o que nós
próprios teremos que enfrentar ao longo dos dias. Talvez possamos
interrogar-nos sobre o que fazemos dos medos e das insatisfações ligadas à
finitude humana, sobretudo quando os nossos fantasmas de omnipotência querem
levar-nos a crer ser possível remediá-los com meios que, no final, nos deixarão
vazios e desamparados. Será que temos o reflexo de voltar-nos para Deus e
manter-nos na Sua presença, na “humilde condição” que é a nossa, para lhE pedir
que nos “faça conhecer o caminho a seguir”(Prov.2)? Aliás, não é O próprio Deus
que nos falta ?
Enfim, pensemos servir-nos das “armas de combate espiritual”
(Efés.6,10-17). Um caminho que nos levará a prostrar-nos para adorarmos apenas
Deus.