Génesis 12,1-4a ; Sal 32, 4-5.18-19. 20. 22 ; 2 Timóteo
1, 8b-10 ; Mateus 17,1-9
UM ITINERÁRIO PESSOAL
(Gén.17,1-9). Este 2º domingo da Quaresma anuncia-nos que Deus tem um
projecto para cada um. Projecto que pode ser entendido como um peso, mas que é
antes, mais uma graça para agarrar e desenvolver no tempo. Por isso,
interroguemo-nos sobre qual o caminho a seguir para trabalharmos na nossa
conversão e aproximar-nos das exigências evangélicas. As três leituras de hoje
propõem-nos a entrada num itinerário pessoal para se chegar ao final da
caminhada. Para se viverem bem os 40 dias de oração, de jejum e de partilha,
apoiemo-nos na experiência de despojamento interior e de fé confiante de Paulo
e dos discípulos.
Sendo a Páscoa o destino da nossa peregrinação, se
escolhermos os atalhos arriscamo-nos a falhar a ascese indispensável ao nosso
desejo de mudança profunda. Assim, Abraão partiu do seu país e deixou a família
para chegar a uma terra de que ignorava tudo. Esta experiência única
permitiu-lhe dar resposta à vocação de patriarca na qual O Altíssimo Se irá apoiar
para Se revelar ao Povo por Ele escolhido. Para Paulo, é a aceitação da graça
comunicada por Deus que nos permite ser plenamente cristãos. Se Jesus chamou 3
discípulos para os levar, à parte, sobre a montanha foi para lhes revelar a Sua
natureza de Filho de Deus.
“TRANSFlGUROU-SE DlANTE DELES” (Mat.17,1-9). Cristo não faz
o “anúncio” da Sua glória futura ; revela a Sua presente glória de servo: a
glória de Deus manifesta-se na Paixão e está completa no Servo morto na cruz
abandonado por todos. A transfiguração abrange a vida e a morte de Cristo, ou
seja, Deus glorifica-Se não depois (para lá do sofrimento que terá de aceitar
na expectativa de outra coisa) mas na própria provação. A Paixão ignominiosa de
Jesus - vamos reler a Paixão de S.João - é a Sua exaltação. O desprendimento
total de Si encerra n’Ele a plenitude da Vida. A morte de Jesus é a única
linguagem que pode traduzir, sem a trair, a Palavra eterna dO Pai: “Tu és O Meu
Filho muito amado”. E nós porque estamos sempre a desperdiçar o tempo ? Para
orar é raro termos disponibilidade (adiamos ou esquecemos as horas de oração),
para fazer um retiro (entenda-se esta palavra como quisermos) tentamos fugir a
esse instante e nunca temos tempo para viver verdadeiramente a vida e
glorificarmos Deus. Mas não é esta a lógica da Encarnação que deveria ser a única
a comandar as minhas relações com Deus: é no mais obscuro do quotidiano banal,
talvez nos momentos mais acabrunhantes, que Deus quer manifestar a Sua glória e
aguarda o meu louvor..., na aceitação, no abandono, no amor crucificado que diz
sim à vontade dO Pai, um sim desde já eterno, sim do re-encontro e
reconhecimento. A vida eterna é tecida por cada um destes sim, murmurados,
repetidos em cada instante...
Mesmo durante o sono ; e o “sono” será melhor se eu, como O
Esposo do cântico, vigiar, porque então Ele virá sem eu sequer dar conta disso.