Ezequiel 18, 21-28 ; Sal 129,1-8 ; Mateus 5, 20-26
“DAS PROFUNDEZAS, EU CLAMO POR TI…” (Sal.129,1-8). A simples
palavra “profundeza” projecta na nossa mente um turbilhão de imagens e
situações. “De profundis” : do fundo do abismo. Quem é que hoje não teme os
abismos, quem é que nunca aí caiu ou aí se debateu, talvez há pouco ou muito
tempo ? O abismo é o “barranco”, o lugar em que tudo parece estar perdido ; o
seu fundo é justamente quando nem sequer há mais fundo, apenas queda, pouco
importa se rápida ou lenta, inexorável. O abismo é também o “desespero” de se
sentir completamente só, é o “nada” que nos separa da vida. “Do fundo do
abismo, clamo a Ti, Senhor”. É o momento de reconhecer essa voz : a voz do
salmista que iniciou este salmo para que outros homens e mulheres o
continuassem, linha após linha, palavra a palavra, com ele. Voz dO Verbo que já
estava no coração do homem da antiguidade e no de hoje; voz dO Verbo no meu
coração, a rezar a oração que não posso fazer só. Murmúrio dO Espírito, a gemer
no fundo da nossa alma envolta nas trevas, a percorrer os abismos e a
restabelecer a comunhão que julgávamos impossível.
PERMANECER VIGILANTES NO SENHOR (Eze.18,21-28). Ao falar
duma responsabilidade individual e não apenas colectiva, Ezequiel marca um
tempo de viragem. Que nos ensina ele? Por um lado, que a conversão é sempre
possível e Deus não esperar mais do que isso. Por outro, que a prática da
justiça não está adquirida definitivamente - podemos sempre recair.
A “sentinela” dos textos de Ezequiel convida-nos à
vigilância, à sadia “inquietação” que está nos antípodas do entorpecimento ou
do contentamento hipócrita de si mesmo.